O Impacto do Carvalho Sobre o Vinho

Entre as inúmeras nuances presentes num vinho, a influência das barricas de madeira é uma das mais complexas, sobretudo para enófilos iniciantes. Basicamente, a madeira confere maior capacidade de longevidade, ao mesmo tempo em que ajuda a temperar a bebida com aromas impossíveis de se obter apenas com a fermentação, como os de torrefação, baunilha, café, chocolate, caramelo, entre outros. O bom uso da barrica é quase tão importante quanto o cultivo das videiras, já que no fim das contas, um complementa o outro. 

red-371767_640

Mas como isso tudo é feito? Hoje a gente te explica! Preparado para se transformar em um expert em barricas de carvalho? Então, dá só uma olhada nesse superguia que preparamos para você:

1 – SÓ VALE SE FOR CARVALHO? 

Um grande vinho, rico em aromas e complexidade, certamente teve contato com o carvalho durante seu processo de produção. Agora, provavelmente você já deve ter pensado: “Mas por que o carvalho e não outro tipo de madeira?”  Outros exemplares, como cerejeira e castanho…se mostraram verdadeiros fiascos na hora de cumprir a função de armazenar bons vinhos. Somente o carvalho se apresentou como uma opção perfeita, sobretudo por seu caráter leve, resistente, maleável e impermeável, ao passo que seu “tempero” foi o que mais combinou com o sabor do vinho em si. Porém, toda regra tem sua exceção. O vinho português Mouchão Tonel 3-4 amadurece durante  24 meses em tonéis 3 e 4, de carvalho português, macacaúba e mogno. Observe que nem nesse caso o carvalho é totalmente descartado. 

15685676486_49c16b65f9

2 – PODE QUALQUER CARVALHO? 

Pois é, nem todo o carvalho é igual. Simplificando, há dois tipos de carvalho mais utilizados na fabricação do vinho:

  • Carvalho Americano: Natural do Leste dos Estado Unidos, possui baixas quantidades de fenólicos (substâncias que dão estrutura ao vinho) e alta concentração de compostos aromáticos. Costuma dar à bebida ótimas nuances de manteiga e baunilha.
  • Carvalho Francês: 1/4 de toda a área francesa é ocupada por florestas e as barricas fabricadas com o carvalho de lá são desmembradas em dois subtipos. Um deles, oriundo da Floresta de Vosges, dá à bebida mais aromas e menos estruturas. Já os da Floresta de Limousin, da Borgonha e do Sul da França contam com mais polifenóis (corpo, estrutura) e menos aromas.

3 – BARRICA DA BOA = VINHO DO BOM 

A qualidade da barrica interfere diretamente no resultado final do vinho. Viu como é mais complexo que a gente imagina? Há o carvalho mais poroso ou menos poroso, que absorve mais ou menos vinho. Os menos porosos não afetam tanto o vinho. Chegam de mansinho, dando aquele toque de madeira que valoriza o sabor natural da bebida. Talvez seja por isso que estes são os mais procurados. Eu mesma sou adepta de vinhos que mostram toques discretos de carvalho, cujas nuances de madeira não se sobrepõem aos demais componentes da bebida. 

OUTROS FATORES

Entre os fatores que influenciam no resultado final do nosso néctar, estão, ainda, o crescimento e a idade da árvore, o tipo de corte (serragem) do tronco e envelhecimento da madeira, assim como a tosta e a montagem da barrica. Ou seja, a produção de um recipiente de qualidade envolve muitos detalhes. Talvez isso explique o porquê do alto custo que  esse processo gera,  tanto para as vinícolas (as barricas são caras), quanto para nós, consumidores finais, visto que tais aspectos impactam no preço dos vinhos.

4 – BARRICAS NOVAS OU USADAS?

Outro aspecto que faz toda a diferença é se a barrica é nova ou usada. As novas transmitem uma série de aromas e sabores fresquinhos para o vinho, ao passo que as usadas já não fazem tanto efeito, permitindo apenas a micro-oxigenação. Por isso, as vinícolas que buscam nuances de carvalho novo em seus rótulos usam apenas barris de 1ª, 2ª, no máximo 3ª mão. Os de 4ª são raramente usados. Depois disso, geralmente as barricas são vendidas para outras finalidades, que não vinho. Esse é outro fator que encarece o custo de produção, visto que uma boa barrica francesa pode custar 1 mil euros e uma americana não sai por menos de 500 dólares. 

wine-1237335_640

BRET

Também vale lembrar que barricas usadas mais de 2 vezes devem ser perfeitamente higienizadas, a fim de evitar o contágio pelo Brettanomyces, ou Bret (apelido). Trata-se de uma levedura que pode transmitir aromas defeituosos ao vinho, que lembram mofo e toques animais desagradáveis. Eca! Imagino que a mínima possibilidade dessa contaminação deva tirar o sono de muitos produtores.

5 – CHIPS E DOMINÓ

Então, já que os custos de produção das barricas são altos, muitas vinícolas têm apostado em alternativas mais baratas para dar aquele gostinho de carvalho ao vinhos, como o uso de Chips ou Dominós.

Atacado-de-carvalho-de-carvalho-de-carvalho-de.jpg_640x640

CHIPS: restos de carvalho, aduelas, serragem, enfim todas as sobras de madeira que são postas em contato com o vinho, a fim de simular o efeito das barricas. 

DOMINÓS: são tacos de carvalho, que lembram peças de dominó. Assim como os chips, também são colocados junto à bebida, a fim de conferir um sabor de madeira mais economicamente viável. 

LEGISLAÇÃO

Célio Alzer, meu professor na ABS, levou alguns para a turma ver de perto. Lembro-me de que eram bem cheirosos, se bem que sou suspeita para falar, já que adoro um cheirinho de madeira…. Enfim, eles colocam os Chips, por exemplo, em uma espécie de saquinhos de chá gigantes e mergulham no vinho acondicionado em tanques de inox. Os Dominós, por sua vez, são pendurados em uma espécie de “cabide” e igualmente imersos nos tanques. Nem sempre essa alternativa é legalizada. Depende muito do país ou região. Aqui na América do Sul costuma ser permitido. Nessa, muitos vinhos “Reserva” cujo contra-rótulo nem menciona carvalho, podem ser oriundos de chips ou dominós. Certamente já bebi muitos desses e adorei. Por que não? 

Porém, vale lembrar que, apesar de simularem um barril de carvalho, passando aromas e sabores de madeira para o vinho, chips e dominós não proporcionam a mesma longevidade e complexidade que uma barrica de verdade. Logo, essas alternativas não se aplicam a vinhos de guarda, de melhor qualidade. Mas para aquele rótulo de consumo imediato, acredito que agregue muito em nuances e sabor. Ótimo para uma degustação divertida e despretensiosa. 

4248305516_51fc3e8317

Enfim, espero ter conseguido explicar um pouco da influência que o carvalho exerce nos vinhos, sobretudo para os enófilos iniciantes. O intuito foi descomplicar um assunto que costuma confundir até mesmo os mais experientes. Fato é que adorei escrever esse post e esse friozinho me inspirou demais. Tudo a ver com vinhos!

Até a próxima! Boa semana e Ótimos Vinhos!

 

 

 

 

 

 

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s