“O Sommelier Sedutor”

Contos & crônicas do Sommelier André Ribeiro episódio de hoje:

“O Sommelier Sedutor”

Thomas era um Sommelier super requisitado, tinha um ótimo conhecimento sobre vinho, estudava muito e, o principal, viajava muito para vários países e vinícolas à procura de novos talentos. Ele conseguiu essa oportunidade através de uma grande importadora que viu sua habilidade em escolher sempre os melhores vinhos e os que eram mais vendáveis – venda certa, dinheiro em caixa. Ele adorava os vinhos exóticos, mas sabia que, comercialmente falando, era um tiro no pé.

Como possuia uma ótima aparência, era carismático, falava várias línguas, era solteiro e estava na flor da idade com seus 30 anos. Thomas sempre encontrava uma “enopaixão” nas vinícolas e nos países que passava, tendo saído escoltado do Uruguai pois seduziu a filha do produtor e ele descobriu. Por pouco, Thomas não virou parrillada.

Em uma de suas viagem pela Turquia, o berço da civilização, conheceu um Czar muito rico e dono de muitas terras. Festeiro e brincalhão, logo gostou de Thomas e resolveu fazer uma parceria com ele para produzir um vinho com o nome Czar Turco. Thomas topou e disse: “posso rodar toda a Turquia e encontrar o melhor vinho; compramos o líquido e colocamos o seu nome”. O Czar olhou pra ele e respondeu: “isso seria desonesto! eu quero produzir o vinho em minhas terras”.

Thomas disse que isso levaria anos, então o Czar respondeu que lhe daria o seu maior tesouro se seu sonho se realizasse, ao que Thomas disse que não podia pois tinha compromissos a cumprir. “Tudo bem, fique conosco esta noite, amanhã pode partir. Vá para o seus aposentos, tome um banho, descanse. À noite farei um banquete em sua homenagem e provará os vinhos que aqui produzimos” disse o Czar.

Na hora marcada, Thomas desceu. O salão estava lindo e logo ele se encantou com as dançarinas. Eram as coisas mais lindas, uma melhor do que a outra. Foi quando o Czar entrou de braços dados com uma jovem. Thomas ficou paralisado, ela tinha os olhos mais lindos que já havia visto, pareciam duas tâmaras maduras, sua pele viçosa como a de um pêssego, cabelos brilhantes, esbelta, tinha um ar de pessoa culta. Ela olhou para ele e deu um sorriso.

O coração de Thomas disparou. “Essa é minha filha, Esmeralda” disse o Czar. Thomas disse prazer em palavras entrecortadas. Esmeralda disse: “tudo bem? Você deve ser o Sommelier que papai me falou, venha, vou lhe mostrar o Palácio”. Saíram, viram o jardim, a cozinha, todas as dependências. Ela era bem-humorada, bonita e culta. Thomas estava encantado.

Voltaram para o banquete e Esmeralda dançou sobre o olhar hipnotizado de Thomas. Começaram a provar os vinhos e logo Thomas percebeu que os vinhos não eram ruins, só precisavam de um toque de um bom enólogo. Thomas disse ao Czar o que pensava, que pediu para que o sommelier ficasse e o ajudasse nessa tarefa.

Thomas estava confuso e tonto pelo vinho; olhava Esmeralda, estão ele respondeu: “e quanto ao seu maior tesouro? E quanto a empresa em que eu trabalho”. O Czar respondeu que seria dele se conseguisse o vinho quase perfeito e quanto a empresa, o Czar se entenderia com eles. Festejaram, beberam. Esmeralda estava feliz e radiante. A noite passou e Thomas adormeceu embalado pelos sonhos com a sua amada.

No dia seguinte, o trabalho começou. Thomas tinha carta branca para fazer o que quisesse. Contratou um enólogo amigo seu que mandou jogar tudo fora e comprou um maquinário super moderno, o melhor que existia. Thomas acompanhava tudo de perto, ele queria saber tudo o que se passava no vinhedo. Ao final do dia, Esmeralda sempre lhe levava um suco de tâmaras fresquinhas, e para os trabalhadores também, raramente os dois ficavam a sós, pois a vigilância dos Czares eram super rígidas, por isso, ela sempre estava acompanhada de duas os três pessoas. À noite, todos jantavam juntos, o sultão feliz da vida.

Um ano se passou. Veio a primeira colheita, todos fizeram com muita alegria, Thomas sempre ao lado de Esmeralda. A colheita foi um sucesso!

Thomas tomou ciência de um vinho milenar feito por eles, o vinho laranja, feito em kvevri – ou qvevri – ânforas enterradas na terra – onde o vinho branco amadurecia e fermentava em contato com a casca, extraindo assim corpo e cor ao vinho. Logo ele, que não era adepto a vinhos diferentes comercialmente falando, rendeu-se ao seu encanto… um branco bem diferente do padrão. Os tintos e brancos produzidos melhoraram estupidamente em qualidade, assim o Czar lançou a linha de vinho Thomas & Jhofre e foi um sucesso, principalmente a divulgação mundial do vinho laranja que era a coqueluche do momento.

O sultão o chamou de canto e disse “acho que é a hora de receber meu maior tesouro…” Thomas o interrompeu e disse: “o único tesouro que me interessa é a mão da sua filha Esmeralda”. O Czar respondeu: “há muitos anos, quando Esmeralda nasceu, um oráculo fez a seguinte revelação… ‘um estrangeiro chegará sobre a folha da videira, a sua filha entregarás para a prosperidade do teu Reino, mas antes disso, descubras primeiro se é digno.’

Nesse meio, tivemos muitas visitas à nossa vinícola, surgiram muitos pretendentes pela riqueza que carrego e pela beleza de minha filha, mas todos quando eram chamados ao trabalho eram preguiçosos, beberrões e desrespeitadores. Você não. Se mostrou trabalhador, respeitou a minha filha e a minha pessoa, por isso, és tua a mão de Esmeralda e metade do meu Reino!”

Semanas depois, os dois se casaram com uma festa estilo bodas de Canaã, que durou por três dias, com vinho à vontade e banquetes servidos aos ricos e ao pobres e trabalhadores do Czar, sem distinção, pois ele como homem justo é bom. Jamais fez separação de classes, por isso todos unidos em um só coro diziam: “vida longa ao Czar!”
Foto ilustrativa @Fathima ibu
#pordentrodovinho

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