O Estilo Brasileiro de Degustar Bons Vinhos

Em meio às comemorações do Dia do Vinho no Brasil, reflito sobre a necessidade de divulgar um pouco mais a cultura de Baco por aqui. Infelizmente, um bom vinho nem sempre  é acessível a todas as pessoas, ainda mais num momento de altos impostos sob as bebidas alcoólicas, agravado ainda mais em virtude da crise econômica.

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Diferente do europeu,  o brasileiro costuma associar o vinho apenas às comemorações. É claro que a bebida combina com festa e momentos inesquecíveis. Mas, acredito que o primeiro passo para torná-la mais presente na mesa do brasileiro seria deixando-a mais acessível. Só espero que esse novo governo pense sobre isso com carinho.

E, apesar das dificuldades, talvez sejamos os únicos no mundo a degustar o néctar dos deuses de forma alegre, descontraída e sem se preocupar com regras e convenções. Porém, ainda temos MUITO o que melhorar quando se trata de degustar e incorporar a bebida em nosso dia-a-dia.

Vejamos alguns fatos curiosos que refletem o estilo brazuca de se beber vinho:

INSEGURANÇA PARA COMPRAR VINHOS

 Justamente por não ter o costume de beber vinho no dia-a-dia, a maioria dos nossos consumidores fica confuso diante das prateleiras dos supermercados. Já perdi a conta de quantas vezes dei sugestões de vinhos para desconhecidos. É só perceber alguém muito decidido na hora da compra, que começam as perguntas. A solução para isso, meus amigos, é a busca constante por informação, seja em livros, revistas ou sites especializados.

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“ESPUMANTE SÓ SERVE PARA BRINDAR”

Nos últimos anos, presenciamos um boom na produção de espumantes do país. Alguns rótulos estão sendo comparados aos franceses em termos de sabor e delicadeza da perlage. Mas o que se vê entre grande parte da população local é a associação do espumante apenas com festa, celebração, brinde. Claro, que o rei das borbulhas simboliza tudo isso. Contudo, em um país tropical, como o nosso, o costume de consumir espumante deveria estar bem mais presente. De preferência, bem geladinho.

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O BRASILEIRO ESTÁ BEBENDO MAIS VINHO

O Instituto Brasileiro do Vinho (Ibravin) apontou que os vinhos, sucos, espumantes e outros derivados da uva registraram em 2015 um crescimento no consumo, mas o vinho tinto se destacou, com um avanço de 4,6%, chegando a 9,1 milhões de litros. “O próprio consumidor está sabendo apreciar o vinho, tanto o nacional quanto o importado, mas o volume consumido ainda é pequeno e nos dá espaço para crescer por vários anos mais”, disse Oscar Lo, presidente da Federação de Cooperativas Vinícolas do Rio Grande do Sul (Fecovinho).

CONSUMIMOS POUCO VINHO NACIONAL

Como já falei por aqui, os custos de produção de vinho no Brasil, bem como os impostos, são maiores que no Chile, por exemplo. Sendo assim, bons exemplares chilenos chegam às nossas prateleiras com valores mais baixos que os nacionais. Não é à toa que fermentados provenientes do Chile e Argentina são os mais consumidos em nosso país. Afinal, estes chegam por aqui com o custo-benefício melhor que os nossos. Sem falar que ainda existe esse estigma de que o brasileiro não sabe valorizar o que é seu. Sei de muita gente que acha mais status adquirir um vinho importado, simplesmente por ser de fora, como se isso fosse garantia de maior qualidade.

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CULTURA DO VINHO DE GARRAFÃO

Grande parte da população, sobretudo aqueles das classes menos favorecidas, adotaram o vinho suave e docinho como seu preferido. Se o salário mínimo mal dá para adquirir uma cesta básica, que dirá uma garrafa de vinho fino. Mas, sim, essas pessoas querem consumir vinho, talvez até tenham vontade de experimentar um exemplar de qualidade, elaborado com uvas finas. Porém, a nossa situação econômica anda muito difícil. Para muitos desses, a única alternativa são os vinhos de garrafão, mais baratos e acessíveis. Sonho com o dia em que nosso governo incentive a produção de vinhos finos ao ponto de poder atender a todos.

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E vocês, empolgados com o feriado? Que tal ajudarmos a propagar a cultura do vinho entre nossos amigos e familiares? Mostrar o nosso néctar dos deuses para pessoas que não têm  o costume de degustá-lo? Eu adoro apresentar esse mundo a quem ainda não conhece. Muito bom ver alguém se surpreendendo positivamente e adotando esse consumo super saudável para a vida.

Bom feriado e ótimos vinhos! Tim-Tim!

Viva o Terroir Nacional: Sim, Nós Temos Vinhos Maravilhosos!

Ultimamente, tenho prestigiado muitos rótulos nacionais. E sabe que eles têm me surpreendido positivamente? Afinal, apesar de todas as dificuldades, os produtores brasileiros continuam se esforçando para que nossos vinhos despontem de vez no cenário internacional.

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POR QUE O  CONSUMIDOR BRASILEIRO NÃO ADOTA O VINHO NACIONAL ?

80% dos vinhos nacionais ainda são produzidos com uvas americanas, ou seja, isso resulta em rótulos de mesa, fabricados com uvas de qualidade inferior – os chamados “Vinhos de Garrafão”, muito diferentes dos vinhos finos, que costumam agradar aos paladares mais exigentes.

ALTOS IMPOSTOS EM CIMA DAS BEBIDAS ALCOÓLICAS

Entre os fatores que dificultam as vendas dos vinhos finos nacionais estão a alta tributação de impostos e o uso de tecnologia estrangeira, como barricas importadas dos EUA e França. Tudo isso acaba encarecendo nosso processo de produção, tornando-o mais caro que o dos vinhos de fora.

Esse tipo de coisa impacta no produto final, sobretudo nos vinhos de melhor qualidade. Por essas e outras, vejo muita gente que prefere adquirir aquele chileno superconhecido a experimentar um rótulo brasileiro mais caro ou do mesmo valor.

Contudo, não podemos esquecer que estamos em meio a uma crise econômica e que a tendência é de uma maior valorização do produto nacional, inclusive com incentivos fiscais. Quem sabe?

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TERROIS DO BRASIL

Se tem uma coisa que brasileiro sabe fazer melhor que ninguém é dar a volta por cima. Por isso, são inúmeros os rótulos premiados em concursos de todo o mundo, sobretudo os espumantes. Todo esse prestígio acaba aguçando a curiosidade dos consumidores daqui e de fora,  impactando as vendas de forma bastante positiva.

Agora, com vocês, um pouquinho do que o Brasil tem de bom na produção vitivinícola.

Conheça um pouco do nosso terroir:

VALE DO SÃO FRANCISCO

Localizado entre Pernambuco e Bahia, numa latitude até então impensável para o mundo do vinho (8º), o Vale de São Francisco está se tornando um dos principais produtores vitivinícolas do país, despertando a curiosidade mundial.

Responsável por 99% da uva de mesa exportada pelo Brasil e pela produção de 5 milhões de litros de vinho por ano, a região vem se destacando como modelo de desenvolvimento para o Nordeste e o resto do país.

A produção pernambucana/baiana já detém 15% do mercado nacional e emprega diretamente 30 mil pessoas na única região do mundo que produz duas safras e meia por ano, graças a avançadas técnicas de irrigação e de seu clima, ensolarado a maior parte do ano.

  • Uvas Tintas: Syrah, Cabernet Sauvignon
  • Uvas Brancas: Moscatel, Muskadel, Chardonnay, Sauvignon Blanc, Silvaner, Moscato Canelli

SERRA GAÚCHA

É a maior região de vinhos do país, responsável por 90% da produção. Com cerca de 40 mil hectares de vinhedos, tem como principais destaques os municípios de Garibaldi, Bento Gonçalves, Caxias do Sul, Vale dos Vinhedos e Pinto Bandeira.

Povoada, em sua maioria, por imigrantes italianos, a maioria de Vêneto, possuem a cultura do vinho em suas raízes. Instalaram-se por volta de 1870 na Serra Gaúcha, onde plantaram as primeiras videiras.

  • Uvas Tintas (mais tradicionais): Merlot, Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc.
  • Uvas Brancas (mais tradicionais): Chardonnay, Sauvignon Blanc e Riesling Itálica.

CAMPANHA GAÚCHA

Na fronteira do Brasil com o Uruguai, a Campanha Gaúcha vem ganhando bastante destaque nos últimos anos. Terrenos pedregosos com pouca matéria orgânica são condições boas para as videiras. Entre as cidades, destaca-se Santana do Livramento, cujas vinícolas se dedicam à produção desde a década de 70.

  • Uvas Tintas: Tannat (também ícone do vizinho Uruguai), Cabernet Sauvignon e Merlot.
  • Uvas Brancas: Riesling, Chardonnay e Gewurztraminer

SANTA CATARINA

Na altitude de 1.200 metros, o Planalto Catarinense é uma das regiões mais frias do Brasil. Fica localizado entre as cidades de Lages, Bom Retiro e São Joaquim. Nessa região as temperaturas médias mais baixas criam condições especiais para uma vinicultura fina voltada para a qualidade.

As condições climáticas são melhores que as da Serra Gaúcha e tem-se avançado na produção de uvas européias e vinhos de qualidade.

  • Uvas Tintas: Cabernet Sauvignon, Merlot, Cabernet Franc, Malbec, Syrah, Tannat, Sangiovese e Montepulciano.
  • Uvas Brancas: Chardonnay e Sauvignon Blanc

Agora que você já conhece um pouquinho do nosso aclamado terroir, que tal deixar o preconceito de lado e experimentar os ótimos vinhos nacionais? São inúmeras opções, disponíveis desde as prateleiras dos supermercados às lojas virtuais e especializadas.

ATUALIZADO: 25/04/2017: Hoje, revisitando esse post, escrito há quase 1 ano, percebi que deixei muita coisa por fora. Sim, o Brasil tem muito mais! Tem vinho em Minas Gerais, São Paulo, Espírito Santo e em diversas outras regiões de Santa Catarina e Rio Grande do Sul.

Pensando nisso, decidi repostar esse artigo, com o intuito de inaugurar a série “Viva o Terroir Nacional”. E, sim, temos muito o que descobrir nesse nosso imenso Brasil.

Até a próxima! Bons vinhos! Tim-Tim!