O Rapto do Mouton Dourado

Crônicas e contos do Sommelier André Ribeiro

O Rapto do Mouton Dourado

Todo vinho premier cru lançado pela Mouton tem rótulos desenhados por grandes artistas, às vezes rótulos até polêmicos que foram proibidos em épocas remotas. No ano 2000 ele foi lançado com uma gravura a base de ouro com o desenho de uma ovelha – a safra da virada do milênio.


A legislação de 1885 de Bordeaux dividiu em cinco os Premier Grand Cru e o Mouton é um deles que, aliás, passou raspando na época, por ter sido classificado como Deuxièmes (ou Séconds); O carismático Baron Philippe de Rothschild, que dirigiu Mouton de 1922 até sua morte em 1988, fez a sua ambição ao longo da vida para corrigir esta injustiça. Durante anos, o rótulo Mouton exibia as palavras “Premier ne puis, segundo ne Daigne, Mouton suis” (Primeiro eu não posso ser, segundo eu não quero ser, sou simplesmente Mouton).

Percebendo que ainda existem vinhos de qualidade sem classificações, criou-se o cru borgeois, divididos em três por ordem de qualidade. Então ficou cru borgeois, cru borgeois superior e cru borgeois excepcional. Depois, surgiu uma nova classificação para pequenos produtores o cru di artesan, um dos eleitos foi um vinho vizinho do Mouton chamado chateau berere com um lobo no rótulo, o que é muito significativo já que o lobo vigia a ovelha. Para quem não sabe, Mouton significa ovelha.

Trabalhava em uma loja relativamente grande na época, onde possuímos no estoque 3 garrafas desse vinho. A loja tinha vários clientes que circulavam, muitos ficavam horas na adega olhando e namorando os vinhos. Num certo dia, atendi um cidadão que me impressionou pelos conhecimentos em vinhos, principalmente franceses, o que é raro no Brasil devido ao pouco giro e preço desses vinhos, eu mesmo tenho um sonho de um dia poder provar todos os ícones franceses. Conversamos bastante e ele ficou de voltar outro dia, mas levou uma garrafa de Cartuxa Reserva.

Após uma semana, ele retornou, me cumprimentou e disse “posso dar uma olhadinha na adega?” eu respondi que claro. A loja estava cheia, todos estávamos ocupados, passou um tempo eu vi ele saindo com umas garrafas de Cartuxa, me cumprimentou de longe e disse “vou levar mais, estava ótimo!”

Passados dois dias, temos na loja um sistema de balanço surpresa onde sai uma lista de 10 itens aleatórios dos produtos caros para contarmos. Para o meu espanto, faltava uma garrafa de Mouton… aí foi aquela confusão. Procura de um lado, procura do outro… aí me veio em mente o estranho cliente… A garrafa de Mouton e do Cartuxa reserva são praticamente iguais.

Contei o estoque do Cartuxa, estava sobrando uma garrafa. Puxamos nos sistemas das câmeras, mas não têm câmeras dentro da adega, apenas fora, que fica apontada para ela. Pela silhueta, deu para ver que ele tirou do bolso dois rótulos: colou um na frente, em cima da ovelha, e outro atrás… no contra rótulo. Passou no caixa um Cartuxa e levou um Mouton! Isso que chamamos de furto qualificado, onde a pessoa entra já com a intenção de praticar.

Fica o nosso alerta para clientes misteriosos: sempre um olho na garrafa e o outro no cliente!
#pordentrodovinho
Foto montagem: Guilherme Mota

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